Saturday, November 19, 2005

..."Dear Leonard
To look life in the face, always to look life in the face...
And to know it for what it is
At last...to know it
And love it for what it is...
And then...to put it away...
Leonard, always the years between us
Always the years
Always the... love
Always the... Hours..."(The Hours)


Há uma angústia que se infiltra nas palavras e nos pensamentos. Uma angústia em forma de saudade de um tempo que nuca existiu verdadeiramente. Um tempo do qual já não posso fugir.
Todo este sentimento estará sempre confinado a palavras para poder existir. Mas as palavras não conseguem substituir a vida nem os pensamentos nem a saudade... Mas parece nunca haver saída. É essa a ironia de quem só tem as palavras. "As Horas", para mim descrevem este sentimento de angústia (não as palavras as horas) mas a alma que as envolve. Tudo o que as palavras não podem dizer, as horas podem. São como instantes de realidades, pequenas visões que só tomamos consciência depois de desaparecerem, dentro do grande sonho... Saber reconhecer as mesmas emoções dentro e fora do sonho...é aqui que reside o mistério.
Saber que ele existe não acaba com a angústia da existência.

Saturday, October 29, 2005


"This is the strangest life I've ever known" (Jim Morrison)



Tu querias ser eu e eu queria ser tu. E nem sequer sabíamos quem éramos.
Aqueles olhos cor de mel que nunca mais os vi. Aquela música cor de um tempo que esquecemos... Agora já "strange days" e "Life of Sundays" já não passam de conjuntos de notas musicais e palavras bonitas. Não passam directamente à alma como dantes. Faziam-nos sentir saudades do que nunca tínhamos tido... Tenho tantas saudades de ter saudades. Alguma reminescência de alma, mas leve e triste..."If i could tell you what you need to know, if i could help you to get on with the show"... A praia deserta e os pensamentos feitos de um mar de emoções azuis claras... Sentados numa rocha ao fim da tarde ou ao fim da manhã. Cor de laranja que ficava tão mal e tão bem..."I wish i was a souvenir you kept your house kee on".A vida numa onda quente de Verão. Dava tudo por mais cinco minutos na água...Que risos tão sinceros tão cheios de esperança. Não penses que o esquecimento e o vazio não deixam mágoa nem ocupam lugar..."No love no glory..."
A angústia pesa tanto como o amor. "What is between the star and the see? A bird as bright as a bird can be, what is between the bird and me, only a star, only the sea, only a star, only the sea..."
Afinal voltei a ver aqule olhar cor de mel cheio e água morna e abraços de felicidade... Deste-me a mão já muito tarde, já se viam as primeiras estrelas...Mas ainda acreditei em ti e em mim como num sonho bom. Que ainda é... "E o teu retrato em cada rua onde não passas trazendo no sorriso a flor do mês de Maio..." Que mais existe para além do que guardámos para sempre no olhar e na alma? Sempre que o silêncio aparece, fica a palavra escondida no pensamento a lembrar-nos que todas as palavras representam o silêncio em fuga. O que não dissemos? O que não te disse? O que ainda temos para dizer para além do silêncio? Tudo o que ficou por calar.
"Vivemos sempre a preto e branco o programa que afinal é a cores..."
Fica mais um pouco. A diferença entre o próximo segundo e a próxima vida. Não chores mais. Vamos de novo ver o mar. Como nos velhos tempos.
"And so it is, just like you said it woul be, life goes easy on me, most of the times..."

Thursday, October 13, 2005

"Escondemos a morte como se ela fosse vergonhosa e suja. Vemos nela apenas horror, absurdo, sofrimento inútil e penoso, escândalo insuportável, conquanto ela seja o momento culminante da nossa vida, o seu coroamento, o que lhe confere sentido e valor."
"A vida ensinou-me três coisas:a primeira é que não impedirei nem a minha morte nem a dos meus próximos. A segunda é que o ser humano não se reduz àquilo que vemos, ou julgamos ver. É sempre infinitamente maior, mais profundo do que os nossos estreitos julgamentos podem exprimir. E, finalmente, ele nunca disse a última palavra, estando sempre a transformar-se, a realizar-se em potência, capaz de se modificar através das crises e das provações da sua existência."
"Não há tristeza na minha alma, apenas gravidade, tal como sempre, após a morte de alguém que me comprometi acompanhar até ao fim. Uma vida que acaba. Sinto a satisfação de ter podido ajudá-la nos momentos mais difíceis, como no dia em que se convenceu que não tinha cura. Sinto gratidão em relação a ela, pois mostrou-me como a podia amparar, mostrou-me que se pode conservar a alegria de viver, apesar do sofrimento de nos vermos dimunuídos. Sinto também que a vida é uma coisa frágil, tão frágil!"
"...Porque na nossa sociedade não há lugar para os que choram a perda de um ser amado. Ninguém me ajudou a esvaziar a minha dor. Acham normal a depressão das pessoas enlutadas, e recomendam-lhes o médico para que lhes receite anti-depressivos. Tentam distrair-nos, fazer-nos mudar de ideias. Em resumo, querem dizer-nos que têm medo do nosso desgosto"...
"Entrar no sonho de outrem é pisar um chão sagrado, penetrar na intimidade do outro. O inconsciente não é apenas o reservatório dos recalcados, ele contém simultaneamente todos os nossos possíveis. É um viveiro de imagens e símbolos susceptíveis de ajudar o nosso desenvolvimento".
"O seu corpo está em vias de desaparecer. O seu pensamento está em regressão. Mas restam-lhe o coração e a alma, ambos intactos."
(Excertos do livro "Diálogo com a Morte", de Marie de Hennezel,psicóloga, que conta a sua experiência junto de doentes terminais)

Wednesday, October 05, 2005

TEXTO IMPROVISADO COM AS PALAVRAS ESCOLHIDAS POR NÓS


O Universo da saudade

O mar de ternura despareceu do teu olhar...
Já os teus lábios desfazem os sorrisos e beijos que dávamos...
Sei que o passado já não existe, já não pode existir mais, que é inútil querer tocar o inatingível. Nem o nosso reencontro posso pedir porque nunca nos separámos. Se houve amor? Sim. Mas o amor também acaba. Nada é em vão só porque acaba um dia. Estou orgulhosa de o saber. De conhecer a origem do amor.
Vem ver o mar só mais uma vez... Lembraste dos silêncios ao fim da tarde? Da luz que se esvaia rapidamente? Da emoção cor-de-rosa de um orgasmo da alma do pôr do sol? Agora resta só o vazio, o sonho, a sensação de perda, o desespero, a solidão, o gelo da despedida só adivinhada num olhar de sal... Fecho os olhos e vêem-me à memória antigas memórias...
O desejo de nos encontramos a cada momento. Passeios de mãos-dadas. Carícias. Carinhos. Paixão. A loucura da coerência do amor, o teu charme feito de estrelas de tempos esquecidos, o teu estilo e sedução em forma de arte, os nossos encontros feitos de sonhos, de uma fantasia real, de pétalas de flores, de uma fonte de sentimentos só nossos, a alegria nos mais simples pormenores, o búzio que me deste numa praia, a boneca que ainda regula o tempo no meu coração... Estou cansada de te lembrar e não te ter. Esperança de te encontrar mais uma vez e desespero de saber que nunca mais...
Viajo pelos desfiladeiros sinuosos da minha mente, voo por cima das montanhas e lagos da minha emoção, a brisa e arco íris perseguem-me de perto e sorriem-me de longe. Os aromas a liberdade, a guerra e paz numa mesma proporção de sofrimento como irmãs na desgraça, ser e morrer ao mesmo tempo, o equlíbrio do céu e do mar, a magia da perfeição comparada a sorrisos de anjos...A luminosidade de sermos felizes e isso nos bastar. Saudades dos tempos em que ainda éramos meninos e a nossa sensibilidade era pura. Palavras vazias desse tempo "Solidariedade, Igualdade, honestidade"...Ensino-me novamente a sonhar mas é tudo muito breve e sem sentido.
Desço à Terra. Desapareceu tudo. Só a mácula azul escura que me deixaste na alma e a parábola cinzenta da tua sombra dentro de mim. Este local sem amor deixa um cheiro pútrido na alma igual a um fruto podre.
Resta-me escutar o silêncio destas horas contínuas que passo sem ti.

Wednesday, September 28, 2005

" Meu muito querido:

Tenho a certeza de que estou novamente a enlouquecer: sinto que não
posso suportar outro desses horríveis
períodos. E desta vez não me restabelecerei. Começo a ouvir vozes e
não me consigo concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor.
Deste-me a maior felicidade possível. Foste em todos os sentidos tudo o que
qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter
sido mais felizes até surgir esta
terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou a
destruir a tua vida, que sem mim poderias
trabalhar. E trabalharás, eu sei. Como vês, nem isto
consigo escrever como deve ser. Não
consigo ler. O que quero dizer é que te devo toda
a felicidade da minha vida. Foste inteiramente
paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso - toda a gente
o sabe. Se alguém me pudesse ter
salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua
bondade. Não posso continuar
estragar a tua vida. Não creio que
duas pessoas
pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos."
V.
(Excerto retirado de "As Horas" de Michael Cunningham)

Thursday, September 22, 2005


"A prova final da omnipotência divina, é que Deus não precisa de existir para nos salvar." (Peter de Vries)

Não estaremos já salvos desde sempre? Desde o início da existência? O segredo dessa salvação é que é muito difícil de descobrir porque está escondido no último local onde alguém se lembraria de procurar, que é dentro de nós! Sempre esteve e sempre estará. Toda a eternidade...Todo o ser humano pode ser tudo o que quiser, basta saber que todo o conhecimento e todos os meios para qualquer aprendizagem que queira fazer ou para qualquer vida que escolha viver...Já possui dentro de si. Descobirmo-nos a nós próprios é, a meu ver, a tarefa mais difícil, mas mais compensatória que existe. Deixemos que a alma do pensamento tome conta de nós e nos leve aos mais paradisíacos espaços mentais...A vida terá então um novo sabor a liberdade e a ventos frios e distantes que jugávamos não conhecer. Há um mundo inteiro e infinito a descobrir e temos a vida inteira para o fazer. O tempo não é obstáculo. O tempo é apenas um conceito cuidadosamente integrado pelo nosso consciente para parecer real...O tempo não existe da forma que pensámos que existe. Uma hora pode durar uma eternidade, e essa mesmo hora pode durar um segundo...E não deixa de ser uma hora...Ou deixará?! Mas o que interessa o conceito de tempo quando há vida lá fora para viver? O tempo também não precisará de existir ou não para nos salvar...

Tuesday, September 20, 2005



Uma flor de verde pinho


Eu podia chamar-te pátria minha
dar-te o mais lindo nome português
podia dar-te um nome de rainha
que este amor é de Pedro por Inês.

Mas não há forma não há verso não há leito
para este fogo amor para este rio.
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou. E eu sem navio.

Gostar de ti é um poema que não digo
que não há taça amor para este vinho
não há guitarra nem cantar de amigo
não há flor não há flor de verde pinho.

Não há barco nem trigo não há trevo
não há palavras para dizer esta canção.
Gostar de ti é um poema que não escrevo.
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.

Manuel Alegre